Quinta-feira, 17 de Maio de 2007
(26) a DEUS

Minha atenção foi chamada por piar aflitivo.

No terraço, em revoada, volteavam os pardais.

Falavam todos à uma e a causa era patente.

Por gato preto ou pardo, um deles fora destroçado, restando a cabeça com dois olhos sem expressão.

Um, que pelo susto passara e tremia de emoção, pipilava a sua história:

--Estávamos na brincadeira, na mira do namoro, e o malvado do gatão, duma só sapatada, apanhou-o mesmo em vôo.

E todos pranteavam em chilreado alarido,  até que um deles questionou:

--- Será que Deus existe ?

A insólita pergunta fez tombar a assembleia em reflexão profunda.

Caiu ali o remanso, por quanto tempo não sei e de nada serviria que as bitolas são diferentes.

A pergunta embaraçosa sai resposta duvidosa e foi aí que dei graças por no paleio não ter entrado.

Decorrido o embaraço, lá rompeu outro piupiu:

-- Ora, se existisse onde estava ele quando o gato aqui passou ?

Retrucou o mais velho em tom pausado, era doutra geração e muito havia voado:

-- Não existe podem crer ! E até ouvi dizer que é invenção dos humanos para tão sós não se sentirem.

Enfim, não quiz ouvir mais destas coisas de pardais, pois naquela madrugada, ainda o orvalho chorava, outra conversa escutara dum grupinho de lagartas.  E o mote semelhante, com queixas da passarada-

Tudo à volta do umbigo e da área circundante, sempre à espera do milagre, esquecem  a morte e o perigo, seu companheiro e mandante.

Mas ainda faço mais, deixo aqui o retrato destes três personagens, tão diferentes, tão iguais.

                

 

E aprendi o conceito:

             Inventado por nós para não nos sentirmos sós !

Gostei...

Uma luz assim acesa, com quem pudesse falar, afastaria a tristeza duma noite sem luar... 

 



publicado por preconceitos às 10:47
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3 comentários:
De empatia a 18 de Maio de 2007 às 02:24
Sem DEUS talvez nem sequer existissem os predadores. Era o NADA. Assim temos a felicidade da escolha do BEM e do MAL. É isso que nos dá liberdade. É também isso que nos torna seres únicos.
Viva sem DEUS, se quiser, mas tenha a certeza que ELE nunca o esquece, nunca o abandona porque o AMOR que tem por si é completamente gratuito e por muito que você duvide ELE ama-o da mesma maneira.
Lembre-se do Filho pródigo. Ali também não é uma questão de justiça mas sim de AMOR.


De preconceitos a 18 de Maio de 2007 às 10:43
Gostaria de perguntar ao pardal destroçado se teve a "felicidade da escolha"..


De cadencia a 18 de Maio de 2007 às 16:53
É. Pior ainda é quando somos obrigados a observar a destruição do pardal. Para não ficar-mos destroçados com o espétaculo tentamos distrair a atenção do gato e acabamos sendo nós os destroçados.
Se temos escolha, e eu acredito que sim, é com certeza antes de vir de lá da nossa estrela, e aí, eu por exemplo, tal como o teu pardal, quando escolhi devia estar com uma grande bebedeira.....


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