Terça-feira, 7 de Novembro de 2006
(19) O CHILREIO
Quando passei sob o velho e imenso plátano, corria manso o Outono e o Sol, em fim de dia, entre ensonado e teimoso, tentava sacudir os aconchegantes farrapos de nuvens à sua volta.
O chilreio cativou-me. Não resisti e, contra natura, resolvi cobrar a minha quota de cusca, tentando perceber o que por ali se dizia.
As aves chegavam aos bandos, regressadas da grande aventura do dia corrido.
Procuravam poiso para a noite próxima e na excitação da chegada e do convívio, gritavam em chilreio as aventuras das últimas horas, vividas em intensidade na procura e conquista do verme, nos voos picados, o espadanar nos charcos e os namoros. Não queriam de todo ser ouvidas, queriam apenas ouvir-se para acreditar na realidade do tempo vivido.
E cada novo bando era chilreio renovado e aumentado.
Fechei os olhos. Tão semelhantes as encontrei aos humanos.
Na ansia dos seus relatos. Chilreavam em uníssono e muito embora ouvissem os outros, seguramente não os escutavam, satisfazendo-se naquela afirmação do eu... eu... eu...
Algum mérito eu credito aquelas aves na comparação atrás feita. 
O chilrear foi melódico e o silencio profundo, logo logo que o Sol se tapou. 
Com os homens é raro.


publicado por preconceitos às 11:24
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Quinta-feira, 2 de Novembro de 2006
(18) PARA SEMPRE

Os outros para mim
Passam ao largo
Roçam-me   ou
Atravessam-me.
Neste último caso,
cativam-me à eternidade.
 
 


publicado por preconceitos às 15:59
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(17) CUIDADO, NÃO APONTE.

Um favor eu quero pedir aos poucos que me visitam:
Não entendam dos meus textos ou das suas entrelinhas,
fácil critica de poleiro ou afirmação gratuita
O relato do que sinto ou me é dado observar,
destinatário não tem,
sendo tão e tão somente o desejo de mudar.
Não esqueço que esse gesto, do indicador esticado,
deixa ali aqueles três dedos que para mim estão a apontar.
 


publicado por preconceitos às 15:29
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Quarta-feira, 1 de Novembro de 2006
(16) A CRISE

O puto parece preocupado, agressivo ou chateado ? Não

Para o futuro garantir, apenas presta atenção ao jornal que tem na mão.

Na escola já pouco aprende, basta ler ou soletrar e até cem saber contar

No desenho é a estrelinha e depois é acertar.

Lá em casa ? É mais do mesmo.

A mãe, o pai, o irmão e pensaram, vejam bem, dar ao gato essa instrução (qu’ele até vai arranhando !).

Grandes descobridores, antigos donos dos mares e de meio mundo também, ficou daí a mania que o trabalho é fantasia e coisa que não convém.

E assim a navegar, dou por certo irmos ao fundo. 

Mas já sendo campeões, pois com a França lideramos o gasto no euromilhões, não interessa mais a crise, se há dinheiro para comer, nem tão pouco para vestir, o que interessa, podem crer:

É apostar, apostar, 

                   alguém há-de pagar 

                                      e o que der é para curtir

 

 



publicado por preconceitos às 16:28
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(15) (CON) VENCIDO PELO CANSAÇO

Da minha odisseia, mesmo quem já foi chateado, apenas faz pálida ideia.

Tudo começou naquele fim de dia de Outono... com licença,  não vou citar ... a brisa, o pôr do sol e outros adereços, vou directo ao que interessa.

Pelas 20 horas, toca o telefone e atendo.

Uma delicada voz de mulher pede-me para chamar a Joana.

Por bem ou por mal, estava só, e disso fiz informação à senhora que se desculpou e foi-se.

Pelas nove, novo toque.

Era um puto que me pedia para chamar a Tia Joana.

Ligeiramente intrigado, esclareci o engano.

Uma hora mais tarde era um sujeito de grossa voz. 

Pedia para chamar a filha, a Joana.

A minha panela que em lume branco já estava, passou  à  fervura e a tampa saltou. 

Depois de alguma troca de mimos o sujeito mandou-me à merda.

Eu desliguei...  e não fui.

Não digo mais nada.

A partir daí e precisamente de hora a hora todos queriam falar com a Joana.

Não discuti mais.

Às oito da manhã, completamente derreado, olhos encovados e a bocejar, resolvi ir encostar a cabeça na palha um pouco em sobressalto. 

De solavanco em solavanco lá desci o penhasco do sono e entreguei-me profundamente...

Estava nesse vale da paz e um som estridente e repetido, acordou-me.

Era a campainha da porta e claro, eram nove horas.

Vesti o roupão e fui abrir.

Vinha ensonado e fiquei extasiado.  Deparei com um sonho de mulher, leve, sem pinturas ou mascaras, irradiando paz e frescura, só faltando abrir-lhe a cabeça para ver se também seria assim por dentro. 

Olhou-me sorridente e disse:

Sou a Joana, a sua nova vizinha, peço desculpa de incomodar tão cedo.  Vinha ver se deixaram algum recado para mim.

Sem saber o que fazer, mandei entrar.

 

Ai, esta memória, como relembrei isso agora ?  Tantos anos passaram e... raios, lá está o telefone outra vez:

                                                           Joana, atende aí!

 

É claro que os preconceituosos estão já a pensar:

“melhor teria sido que ele fosse à merda como o mandaram”

Mas não, enganam-se.   E além disso poupamos uma renda de casa.



publicado por preconceitos às 16:12
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